Exercício Resolvido de Cinemática das Rotações
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Um disco de raio R rola, sem deslizar, com velocidade angular ω constante ao longo de um plano horizontal, sendo que o centro da roda descreve uma trajetória retilínea. Suponha que, a partir de um instante t = 0, um ponto na periferia da roda esteja na origem de um sistema de coordenadas ortogonais Oxy.
a) Determinar as equações paramétricas da trajetória, i.e., determine x e y em função do tempo;
b) Determine as componentes da velocidade;
c) Determine as componentes da aceleração.

Dados do problema:

  • Raio do disco: R;
  • Velocidade angular: ω.

Esquema do problema:

Vamos adotar um sistema de referência O fixo no solo com o ponto P do disco na origem do sistema e um outro sistema de referência O' com origem no centro do disco (Figura 1-A).

Figura 1

O vetor r descreve a posição do ponto P em relação ao referencial O fixo, o vetor rC descreve a posição do centro do disco em relação ao referencial O e o vetor rP descreve a posição do ponto P em relação ao referencial O' que se desloca com o disco

\[ \begin{gather} \mathbf r=\mathbf r_C+\mathbf r_P \tag{I} \end{gather} \]

Solução:

a) O vetor r é escrito como   \( \mathbf r=x\;\mathbf i+y\;\mathbf j \),   onde x e y devem ser escritas em função do tempo, x(t) e y(t), que fornecem as equações paramétricas pedidas, i e j são os vetores unitários nas direções x e y.
O vetor rC é escrito como   \( \mathbf r_C=x_C\;\mathbf i+y_C\;\mathbf j \)   (Figura 2), como a velocidade do disco é constante a ordenada do centro do disco descreve um Movimento Retilíneo Uniforme (M.R.U.), dado por

\[ \begin{gather} \bbox[#99CCFF,10px] {x=x_0+vt} \end{gather} \]

para a coordenada do centro do disco

\[ \begin{gather} x_C=x_{0C}+v_Ct \end{gather} \]

no instante inicial o centro do disco está na origem do eixo-x temos x0C = 0 e vC é o módulo a velocidade do centro do disco

\[ \begin{gather} x_C=v_Ct \end{gather} \]

A abscissa do centro do disco é um valor constante dado pelo raio do disco

\[ \begin{gather} y_C=R \end{gather} \]

podemos escrever

\[ \begin{gather} \mathbf r_C=v_Ct\;\mathbf i+R\;\mathbf j \tag{II} \end{gather} \]

O vetor rP pode ser decomposto nas direções x' e y' tomando-se como referência o sistema O' no centro do disco (Figura 3-A), escrito como   \( \mathbf r_P=x_P\;\mathbf i+y_P\;\mathbf j \)

\[ \begin{gather} x_P=R\cos\theta \\[10pt] y_P=R\operatorname{sen}\theta \end{gather} \]
Figura 2

como a velocidade angular do disco é constante o ponto P descreve um Movimento Circular Uniforme (M.C.U.) cuja equação é dada por

\[ \begin{gather} \bbox[#99CCFF,10px] {\theta =\theta_0+\omega t} \end{gather} \]

O ângulo θ é medido a partir do eixo-x positivo no sentido anti-horário, a posição angular inicial do ponto P é \( \theta_0=\frac{3\pi}{2} \) em relação ao sistema de referência O' e a velocidade angular é negativa, pois o disco gira no sentido horário (Figura 3-B)

\[ \begin{gather} \mathbf r_P=R\cos\left(\frac{3\pi}{2}-\omega t\right)\;\mathbf i+R\operatorname{sen}\left(\frac{3\pi}{2}-\omega t\right)\;\mathbf j \end{gather} \]
Observação: Lembrando das propriedades da Trigonometria
\[ \begin{gather} \cos (a-b)=\cos a\cos b+\operatorname{sen}a\operatorname{sen}b \\[10pt] \operatorname{sen}(a-b)=\operatorname{sen}a\cos b-\operatorname{sen}b\cos a \end{gather} \]
\[ \begin{gather} \mathbf r_P=R\left(\underbrace{\cos\frac{3\pi}{2}}_0\cos\omega t+\underbrace{\operatorname{sen}\frac{3\pi}{2}}_{-1}\operatorname{sen}\omega t\right)\;\mathbf i+R\left(\underbrace{\operatorname{sen}\frac{3\pi}{2}}_{-1}\cos\omega t-\operatorname{sen}\omega t\;\underbrace{\cos\frac{3\pi}{2}}_0\right)\;\mathbf j \\[5pt] \mathbf r_P=-R\operatorname{sen}\omega t\;\mathbf i-R\cos\theta\;\mathbf j \tag{III} \end{gather} \]

Substituindo a definição de r e as expressões (II) e (III) na expressão (I)

\[ \begin{gather} x\;\mathbf i+y\;\mathbf j=v_Ct\;\mathbf i+R\;\mathbf j-R\operatorname{sen}\omega t\;\mathbf i-R\cos\omega t\;\mathbf j \end{gather} \]

separando as componentes

\[ \begin{align} & x=v_Ct-R\operatorname{sen}\omega t \\[10pt] & y=R-R\cos\omega t \tag{IV} \end{align} \]
O vetor velocidade do centro do disco só possui componente na direção i escrito como   \( {\mathbf{\text{v}}}_C=v_C\;\mathbf i \),   o vetor velocidade tangencial de um ponto do disco só possui componente na direção eθ, este é o vetor unitário na direção de variação do ângulo (Figura 4), e é escrito como   \( \mathbf v_T=-v_T\;{\mathbf{\text{e}}}_{\theta} \).   Como o disco gira sem escorregamento os módulos das velocidades do centro do disco e tangencial devem ser iguais.
\[ \begin{gather} \left|\;\mathbf v_C\;\right|=\left|\;\mathbf v_T\;\right|\\ v_C=v_T \end{gather} \]
Figura 3
Observação: O movimento do disco é a composição de dois movimentos, um movimento de translação em que a velocidade do centro do disco (vC) e de todos os pontos do disco (Figura 4-A), e um movimento de rotação de todos os pontos do disco em torno do cento em que a velocidade é tangencial ao disco (vT) (Figura 4-B). A velocidade (v) dos pontos do disco é dada pela composição dessas duas velocidades (Figura 4-C).
Figura 4
Dois vetores são iguais somente se seus módulos, direções e sentidos são iguais, os vetores vC e vT possuem direções e sentidos diferentes (o único ponto em que eles são iguais acontece quando o vetor tangencial está na posição superior do disco, em vermelho na Figura 4-B). Como o problema diz que o disco se desloca sem deslizar podemos igualar seus módulos.
Se a velocidade do centro do disco fosse maior que a velocidade tangencial o disco iria girar devagar enquanto seria arrastado contra o solo, se a velocidade tangencial fosse maior que a velocidade do centro ele iria girar rápido patinando enquanto transladava pelo solo.

O módulo da velocidade tangencial é dado por

\[ \begin{gather} \bbox[#99CCFF,10px] {v=\omega r} \end{gather} \]

igualando as velocidades

\[ \begin{gather} v_T=v_C=\omega R \tag{V} \end{gather} \]

substituindo a expressão (V) na expressão (IV)

\[ \begin{gather} x=\omega Rt-R\operatorname{sen}\omega t \\[10pt] y=R-R\cos\omega t \end{gather} \]
\[ \begin{gather} \bbox[#FFCCCC,10px] { \begin{align} & x(t)=R(\omega t-\operatorname{sen}\omega t) \\[10pt] & y(t)=R(1-\cos\omega t) \end{align} } \end{gather} \]
Observação: A curva descrita pelas equações encontradas é mostrada na Figura 5, esta curva é chamada cicloide.

Figura 5

Os pontos P1, P2, P3, P4 e P5 são alguns pontos do disco enquanto ele se desloca descrevendo a trajetória.

b) A velocidade na direção x será dada por

\[ \begin{gather} v_x(t)=\frac{dx(t)}{dt} \end{gather} \]
Derivada de \( x(t)=R(\omega t-\operatorname{sen}\omega t) \)
\[ \begin{gather} \frac{dx(t)}{dt}=\frac{d[R(\omega t-\operatorname{sen}\omega t)]}{dt} \end{gather} \]
o raio R é constante e “sai” da derivada, a derivada da diferença é a diferença das derivadas, com \( g(t)=\omega t \) e \( h(t)=\operatorname{sen}\omega t \)
\[ \begin{gather} \frac{dx(t)}{dt}=R\left(\frac{dg(t)}{dt}-\frac{dh(t)}{dt}\right) \tag{VI} \end{gather} \]
Derivada de \( g(t)=\omega t \)
\[ \begin{gather} \frac{dg}{dt}=\omega\tag{VII} \end{gather} \]
Derivada de   \( h(t)=\operatorname{sen}\omega t \),   onde a função h(t) é uma função composta cuja derivada, pela regra da cadeia, é do tipo
\[ \begin{gather} \frac{dh[u(t)]}{dt}=\frac{dh}{du}\frac{du}{dt} \tag{VIII} \end{gather} \]
com   \( h(u)=\operatorname{sen}u \)   e   \( u(t)=\omega t \),   \( u(t)=g(t) \)   já foi calculado acima, a derivada será
\[ \begin{gather} \frac{dh}{du}=\cos u \tag{IX} \end{gather} \]
substituindo as expressões (VII) e (IX) na expressão (VIII)
\[ \begin{gather} \frac{dh[u(t)]}{dt}=\omega\cos\omega t \tag{X} \end{gather} \]
substituindo as expressões (VII) e (X) na expressão (VI)
\[ \begin{gather} \frac{dx(t)}{dt}=R(\omega -\omega\cos\omega t) \\[5pt] \frac{dx(t)}{dt}=R\omega (1-\omega\cos\omega t) \tag{XI} \end{gather} \]

A velocidade na direção y será dada por

\[ \begin{gather} v_y(t)=\frac{dy(t)}{dt} \end{gather} \]
Derivada de \( y(t)=R(1-\cos\omega t) \)

o raio R é constante e “sai” da derivada, aplicando novamente a regra de que a derivada da diferença é a diferença das derivadas, com   \( g(t)=1 \)   e   \( h(t)=\cos\omega t \)
\[ \begin{gather} \frac{dy(t)}{dt}=R\left(\frac{dg(t)}{dt}-\frac{dh(t)}{dt}\right) \tag{XII} \end{gather} \]
Derivada de \( g(t)=1 \), a derivada de uma constante é nula
\[ \begin{gather} \frac{dg}{dt}=0 \tag{XIII} \end{gather} \]
Derivada de   \( h(t)=\cos\omega t \),   onde a função h(t) é uma função composta cuja derivada, pela regra da cadeia (VIII), com   \( h(u)=\cos u \)   e   \( u(t)=\omega t \),   \( u(t)=g(t) \)   já foi calculado acima, a derivada será
\[ \begin{gather} \frac{dh}{du}=-\operatorname{sen}u \tag{XIV} \end{gather} \]
substituindo as expressões (VII) e (XIV) na expressão (VIII)
\[ \begin{gather} \frac{dh[u(t)]}{dt}=-\omega\operatorname{sen}\omega t \tag{XV} \end{gather} \]
substituindo as expressões (XIII) e (XV) na expressão (XII)
\[ \begin{gather} \frac{dy(t)}{dt}=R[0-(-\omega\operatorname{sen}\omega t)] \\[5pt] \frac{dy(t)}{dt}=R\omega\operatorname{sen}\omega t \tag{XVI} \end{gather} \]

Com as equações (XI) e (XVI) as equações paramétricas da velocidade serão

\[ \bbox[#FFCCCC,10px] { \begin{align} & v_x(t)=R\omega (1-\cos\omega t) \\[10pt] & v_y(t)=R\omega\operatorname{sen}\omega t \end{align} } \]

c) A aceleração na direção x será dada por

\[ \begin{gather} a_x(t)=\frac{dv_x(t)}{dt} \end{gather} \]
Derivada de \( v_x(t)=R\omega (1-\cos\omega t) \)
\[ \begin{gather} \frac{dv_x(t)}{dt}=\frac{d[R\omega (1-\cos\omega t)]}{dt} \end{gather} \]
o raio R e a velocidade angular ω são constantes e “saem” da derivada, sendo   \( g(t)=1 \)   e   \( h(t)=\cos\omega t \)
\[ \begin{gather} \frac{dv_x(t)}{dt}=R\omega\frac{d[g(t)-h(t)]}{dt} \end{gather} \]
usando o valor para a derivada de g(t) dado pela expressão (XIII) e valor da derivada de h(t) dada pela expressão (XIV)
\[ \begin{gather} \frac{dv_x(t)}{dt}=R\omega [0-(-\omega\operatorname{sen}\omega t)]\\ \frac{dv_x(t)}{dt}=R\omega^2\operatorname{sen}\omega t \tag{XVII} \end{gather} \]

A aceleração na direção y será dada por

\[ \begin{gather} a_y(t)=\frac{dv_y(t)}{dt} \end{gather} \]
Derivada de \( v_y(t)=R\omega\operatorname{sen}\omega t \)

Usando a derivada da função seno calculada acima dada pela expressão (X)
\[ \begin{gather} \frac{dv_y(t)}{dt}=R\omega (\omega\cos\omega t) \\[5pt] \frac{dv_y(t)}{dt}=R\omega^2\cos\omega t \tag{XVIII} \end{gather} \]

Com as equações (XVII) e (XVIII) as equações paramétricas da aceleração serão

\[ \bbox[#FFCCCC,10px] { \begin{align} & a_x(t)=R\omega^2\operatorname{sen}\omega t\\[8pt] & a_y(t)=R\omega^2\cos\omega t \end{align} } \]
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